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06 fevereiro, 2012

Economia verde fetiche do capital!

Por Alejandro Nadal
Eco Debate


Os termos do debate sobre a crise foram impostos pela direita e em sua tela do radar o problema ambiental sempre ocupou um lugar subsidiário. Por isso, não surpreende que agora que os centros de poder castigam com austeridade fiscal e promovem a destruição de qualquer vestígio do estado de bem-estar, o meio ambiente brilhe por sua ausência. E quando se pretende tratá-lo como tema prioritário, a realidade é que é apenas para manter o projeto neoliberal em escala global.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) promove nos últimos três anos uma série de projetos que se enquadram no que vem chamando de Iniciativa de Economia Verde (IEV). Este projeto define uma economia verde como o resultado de melhorias no bem-estar humano e equidade social, ao mesmo tempo que se reduzem os riscos ambientais e a escassez ecológica. O Pnuma sustenta que o manejo eficiente dos recursos ambientais oferece oportunidades econômicas importantes. Finalmente, afirma que uma economia verde deve ser baixa no uso de combustíveis fósseis e socialmente includente.

Esta retórica pode dar uma boa impressão. Mas a realidade é que a iniciativa do Pnuma sofre de grandes defeitos que, ao final das contas, anulam o que poderia aparecer como bons desejos. O que fica é um disfarce mal armado para dar uma cara amável ao neoliberalismo do ponto de vista ambiental.

O primeiro grande problema da IEV é a incapacidade de examinar as causas da destruição ambiental. Nenhuma das forças econômicas que provocam a deterioração ambiental é objeto de uma análise cuidadosa. Nem a concentração do poder econômico em centros corporativos, nem os processos de acumulação de terras em grandes regiões da África e América Latina, nem o efeito da especulação financeira sobre produtos básicos, nem o peso enorme da dívida dos países mais pobres do mundo são temas importantes para o Pnuma. Em contraste, abunda a retórica sobre instrumentos de política baseados no mecanismo de mercado e a necessidade de estimular os investimentos privados.

O Pnuma também ignora as causas da feroz desigualdade, que é o traço dominante na economia mundial. Parece que esta caiu do céu, como se se tratasse de um fenômeno meteorológico. Assim, a IEV fala da necessidade de aliviar e, inclusive, de eliminar a pobreza. Mas sempre que o faz em referência ao potencial que oferece o bom manejo dos recursos. Nunca se menciona a necessidade de corrigir a marcada tendência contra os salários reais. Sabe-se de sobra que em quase todo o mundo os salários reais experimentam um declínio importante a partir dos anos 1970. Entre as causas mais visíveis desse resultado está a repressão salarial imposta para controlar a demanda agregada e, desse modo, levar adiante a luta contra a inflação (o principal inimigo do capital financeiro). Apesar da importância desta variável da distribuição, a palavra salários não consta no dicionário da IEV.

A desigualdade também está fortemente ancorada em uma política fiscal regressiva. Contudo, quando se trata de recomendações em matéria de política fiscal, o documento do Pnuma sugere que o melhor marco fiscal para o crescimento deve descansar nos impostos indiretos e nas baixas taxas impositivas para o setor corporativo. Isto deve ir acompanhado de maior eficiência no gasto público, o que no jargão neoliberal se traduz em maiores ajustes e geração de um superávit primário para pagar cargos financeiros. Claro, as referências do Pnuma são a OCDE, o Banco Mundial e a consultora PriceWaterhouseCoopers. Isso sim, alerta-se sobre os riscos de impor cargas ao capital financeiro.

Embora a iniciativa do Pnuma se baseie na ideia de que a crise oferece a oportunidade para reencaminhar a economia mundial pelo caminho do desenvolvimento sustentável, nenhum documento do organismo contém uma análise séria sobre as origens e a natureza da crise. Os leitores podem corroborar o que foi dito anteriormente na página da IEV (www.unep.org/greeneconomy). Por extraordinário que pareça, uma análise séria sobre a crise e suas ramificações não é relevante para falar da transição para uma economia verde.

A iniciativa do Pnuma procura alongar a vida do modelo neoliberal. É também um bom exemplo da sentença de Keynes: não apenas fracassamos na tentativa de compreender a ordem econômica na qual vivemos, como também a interpretamos mal a ponto de adotar medidas que operam duramente contra nós.

(Ecodebate, 23/01/2012) publicado pela IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação. A reportagem é de Alejandro Nadal e está publicada no jornal mexicano La Jornada, 11-01-2012. A tradução é do Cepat.

14 junho, 2011

Che Guevara faria 83 anos nesta terça

Por Diário Liberdade

No dia 14 de Junho de 1928 nascia em Rosário, Argentina, aquele que foi considerado pela revista norte-americanaTime Magazine como uma das cem personalidades mais importantes do século XX – Ernesto Guevara de la Cerna, mais conhecido por Che Guevara ou El Che, devido ao seu constante uso do vocativo gaúcho "che". Oriundo de uma família da classe média-alta "anti-peronista", detentora de uma biblioteca com cerca de três mil volumes, começou desde cedo a desenvolver, em casa, o gosto pela leitura, incluindo obras de Julio Verne, Alexandre Dumas, Baudelaire, Neruda e Freud, mas também de Marx, Engels e Lenine que iriam moldar a sua personalidade e as suas convicções político-ideológicas.

De saúde débil, propenso a ataques de asma que o atormentariam durante o resto da sua vida, em 1932, com apenas 4 anos, Che Guevara mudou-se com a família, a conselho dos médicos, para Altagracía, uma localidade da região de Córdoba, onde iniciou e terminou os estudos liceais, e mais tarde para Buenos Aires, ingressando em 1946 na Universidade, no curso de Medicina que viria a terminar no ano de 1951.

Entretanto, através de viagens empreendidas a outros países da América latina no exercício de uma das suas profissões temporárias de repórter fotográfico ou por iniciativa própria, o jovem médico foi reforçando as suas convicções ideológicas revolucionárias à medida que se ia inteirando das situações de miséria e sofrimento em que o continente se via mergulhado, sobretudo a Guatemala, onde em 1954, Guevara assistiu à luta e ao triunfo de Guzmán, eleito presidente desse Estado à frente de um partido de cariz popular.

Definindo-se, a partir daí, como um sério opositor ao imperialismo norte-americano, no ano seguinte estava no México, onde conheceu os irmãos Castro, Raúl e Fidel, e veio a participar em todo o processo revolucionário cubano durante o qual logrou granjear a maior quota-parte da fama que o imortalizou em toda a sua épica Cruzada contra a opressão e a favor da liberdade dos povos. Após o triunfo da revolução cubana, e garantida a sua estabilidade após novo triunfo contra o imperialismo dos EUA e os anti-castristas na Baía dos Porcos, sentiu o revolucionário errante o chamamento de novas missões pelo que, em 1965, com a anuência de Fidel, partiu para o Congo com um destacamento de cem"internacionalistas" cubanos, onde, por razões que são imputadas à sua própria imprudência pela falta do necessário reconhecimento prévio da realidade cultural e sociológica africana, conheceu a sua primeira grande decepção.

Em seguida parte para as montanhas da Bolívia, onde julga, a partir daí, poder estabelecer uma base de guerrilha unificada dos países da América Latina com vista à invasão da Argentina. Aí conhece nova desilusão, não consegue o esperado apoio do Partido Comunista boliviano nem a simpatia da escassa população rural e, em estado de extremo desgaste físico e moral, é capturado no dia 8 de Outubro de 1967, conduzido à aldeia de La Higuera e, aí, ingloriamente abatido, no dia seguinte, por um simples soldado boliviano.

Os seus restos mortais, descobertos, em 1997, numa vala comum na cidade de Vallegrande, que fica a cerca de 50 Km de La Higuera, foram trasladados para Cuba e enterrados com honras de chefe de Estado, na presença de membros da família e de Fidel Castro. Também em Cuba foi erigido um monumento em sua homenagem, com base na célebre foto de Alberto Korda, d'oGerillero Heroico.

www.diarioliberdade.org/

03 junho, 2011

O assassinato de Osama Bin Laden

Por Fidel Castro, na Fundação Lauro Campos

Os que se encarregam desses temas sabem que, em 11 de setembro de 2001, nosso povo ficou solidário com o dos Estados Unidos e ofereceu a modesta cooperação que no campo da saúde podíamos oferecer às vítimas do brutal atentado às Torres Gêmeas de Nova Iorque.

Também oferecemos de imediato as pistas aéreas do nosso país para os aviões norte-americanos que não tivessem onde aterrar, por causa do caos reinante nas primeiras horas após aquele golpe.

É conhecida a posição histórica da Revolução Cubana que sempre se opôs às ações que colocassem em perigo a vida de civis.

Partidários decididos da luta armada contra a tirania de Batista; éramos, no entanto, opostos por princípios a todo ato terrorista que ocasionasse a morte de pessoas inocentes. Tal conduta, mantida ao longo de mais de meio século, outorga-nos o direito de expressar um ponto de vista sobre o delicado tema.

Em um ato público maciço realizado na Cidade Esportiva expressei naquele dia a convicção de que o terrorismo internacional jamais seria resolvido mediante a violência e a guerra.

Na verdade, ele foi durante anos amigo dos Estados Unidos que o treinou militarmente, e foi adversário da URSS e do socialismo, mas quaisquer que fossem os atos atribuídos a Bin Laden, o assassinato de um ser humano desarmado e rodeado de familiares constitui um fato aborrecível. Aparentemente foi isso o que fez o governo da nação mais poderosa que jamais existiu.

O discurso elaborado com esmero por Obama para anunciar a morte de Bin Laden afirma: "sabemos que as piores imagens são aquelas que foram invisíveis para o mundo. O assento vazio na mesa. As crianças que foram forçadas a crescerem sem sua mãe ou seu pai. Os pais que nunca voltarão a sentir o abraço de um filho. Cerca de 3 000 cidadãos marcharam longe de nós, deixando um enorme buraco em nossos corações".

Esse parágrafo encerra uma dramática verdade, mas não pode impedir que as pessoas honestas se lembrem das guerras injustas desatadas pelos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão, das centenas de milhares de crianças que foram obrigadas a crescerem sem sua mãe ou seu pai, e aos pais que nunca voltariam a sentir o abraço de um filho.

Milhões de cidadãos marcharam longe de seus povos no Iraque, no Afeganistão, no Vietnã, Laos, no Camboja, Cuba e noutros muitos países do mundo.

Da mente de centenas de milhões de pessoas também não se apagaram as horríveis imagens de seres humanos que em Guantánamo, território ocupado de Cuba, desfilam silenciosamente submetidos durante meses e inclusive anos a insofríveis e enlouquecedoras torturas; são pessoas seqüestradas e transportadas a cárceres secretos com a cumplicidade hipócrita de sociedades supostamente civilizadas.

Obama não tem forma de ocultar que Osama foi executado na presença dos seus filos e esposas, agora em poder das autoridades do Paquistão, um país muçulmano de quase 200 milhões de habitantes, cujas leis têm sido violadas, sua dignidade nacional ofendida, e suas tradições religiosas ultrajadas.

Como impedirá agora que as mulheres e os filos da pessoa executada sem Lei nem julgamento expliquem o acontecido, e as imagens sejam transmitidas ao mundo?

Em 28 de janeiro de 2002, o jornalista da CBS Dan Rather, difundiu por essa emissora de televisão que a 10 de setembro de 2001, um dia antes dos atentados ao World Trade Center e ao Pentágono, Osama Bin Laden foi submetido a uma diálise do rim em um hospital militar do Paquistão. Não estava em condições de ocultar-se e proteger-se em profundas cavernas.

Assassiná-lo e enviá-lo às profundezas do mar demonstra temor e insegurança, tornam-no em uma personagem muito mais perigosa.

A própria opinião pública dos Estados Unidos, após a euforia inicial, terminará criticando os métodos que, em vez de proteger os cidadãos, terminam multiplicando os sentimentos de ódio e vingança contra eles.

Fundação Lauro Campos: www.socialismo.org.br

Fez-se vingança, não justiça

Por Leonardo Boff, da Fundação Lauro Campos

Alguém precisa ser inimigo de si mesmo e contrário aos valores humanitários mínimos se aprovasse o nefasto crime do terrorismo da Al Qaeda do 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque. Mas é por todos os títulos inaceitável que um Estado, militarmente o mais poderoso do mundo, para responder ao terrorismo se tenha transformado ele mesmo num Estado terrorista. Foi o que fez Bush, limitando a democracia e suspendendo a vigência incondicional de alguns direitos, que eram apanágio do pais. Fez mais, conduziu duas guerras, contra o Afeganistão e contra o Iraque, onde devastou uma das culturas mais antigas da humanidade nas qual foram mortos mais de cem mil pessoas e mais de um milhão de deslocados.

Cabe renovar a pergunta que quase a ninguém interessa colocar: por que se produziram tais atos terroristas? O bispo Robert Bowman de Melbourne Beach da Flórida que fora anteriormente piloto de caças militares durante a guerra do Vietnã respondeu, claramente, no National Catholic Reporter, numa carta aberta ao Presidente:"Somos alvo de terroristas porque, em boa parte no mundo, nosso Governo defende a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos de terroristas porque nos odeiam. E nos odeiam porque nosso Governo faz coisas odiosas".

Não disse outra coisa Richard Clarke, responsável contra o terrorismo da Casa Branca numa entrevista a Jorge Pontual emitida pela Globonews de 28/02/2010 e repetida no dia 03/05/2011. Havia advertido à CIA e ao Presidente Bush que um ataque da Al Qaeda era iminente em Nova York. Não lhe deram ouvidos. Logo em seguida ocorreu, o que o encheu de raiva. Essa raiva aumentou contra o Governo quando viu que com mentiras e falsidades Bush, por pura vontade imperial de manter a hegemonia mundial, decretou uma guerra contra o Iraque que não tinha conexão nenhuma com o 11 de setembro. A raiva chegou a um ponto que por saúde e decência se demitiu do cargo.

Mais contundente foi Chalmers Johnson, um dos principais analistas da CIA também numa entrevista ao mesmo jornalista no dia 2 de maio do corrente ano na Globonews. Conheceu por dentro os malefícios que as mais de 800 bases militares norte-americanas produzem, espalhadas pelo mundo todo, pois evocam raiva e revolta nas populações, caldo para o terrorismo. Cita o livro de Eduardo Galeano "As veias abertas da A.Latina" para ilustrar as barbaridades que os órgãos de Inteligência norte-americanos por aqui fizeram. Denuncia o caráter imperial dos Governos, fundado no uso da inteligiência que recomenda golpes de Estado, organiza assassinato de líderes e ensina a torturar. Em protesto, se demitiu e foi ser professor de história na Universidade da Califórnia. Escreveu três tomos "Blowback"(retaliação) onde previa, por poucos meses de antecedência, as retaliações contra a prepotência norte-americana no mundo. Foi tido como o profeta de 11 de setembro. Este é o pano de fundo para entendermos a atual situação que culminou com a execução criminosa de Osama Bin Laden.

Os órgãos de inteligência norte-americanos são uns fracassados. Por dez anos vasculharam o mundo para caçar Bin Laden. Nada conseguiram. Só usando um método imoral, a tortura de um mensageiro de Bin Laden, conseguiram chegar ao su esconderijo. Portanto, não tiveram mérito próprio nenhum.

Tudo nessa caçada está sob o signo da imoralidade, da vergonha e do crime. Primeiramente, o Presidente Barak Obama, como se fosse um "deus" determinou a execução/matança de Bin Laden. Isso vai contra o princípio ético universal de "não matar" e dos acordos internacionais que prescrevem a prisão, o julgamento e a punição do acusado. Assim se fez com Hussein do Iraque,com os criminosos nazistas em Nürenberg, com Eichmann em Israel e com outros acusados. Com Bin Laden se preferiu a execução intencionada, crime pelo qual Barak Obama deverá um dia responder. Depois se invadiu território do Paquistão, sem qualquer aviso prévio da operação. Em seguida, se sequestrou o cadáver e o lançaram ao mar, crime contra a piedade familiar, direito que cada família tem de enterrar seus mortos, criminosos ou não, pois por piores que sejam, nunca deixam de ser humanos.

Não se fez justiça. Praticou-se a vingança, sempre condenável."Minha é a vingança" diz o Deus das escrituras das três religiões abraâmicas. Agora estaremos sob o poder de um Imperador sobre quem pesa a acusação de assassinato. E a necrofilia das multidões nos diminui e nos envergonha a todos.

Leonardo Boff é autor de Fundamentalismo,terrorismo, religião e paz, Vozes 2009

Fundação Lauro Campos: www.socialismo.org.br

08 abril, 2011

O impacto dos conflitos armados sobre a educação

Do Brasil de Fato

Quarenta e dois por centro dos meninos e meninas que não estão na escola vivem em países pobres em situação de conflito armado, segundo o último informe da Unesco apresentado no dia 1º de março. Se os 21 países mais pobres diminuíssem cerca de 10% do seu gasto militar, poderiam garantir a educação de 9,5 milhões de crianças. Somente 2% da ajuda internacional humanitária está destinada a investimentos em educação.


Clique aqui e leia a matéria na íntegra.

22 fevereiro, 2011

A nova mulher e a moral sexual - parte I


Por Alexandra Kollontai

A mulher moderna
Quem são as mulheres modernas? Como as criou a vida?
A mulher moderna, a mulher que denominamos celibatária, é filha do sistema econômico do grande capitalismo. A mulher celibatária, não como tipo acidental, mas uma realidade cotidiana, uma realidade da massa, um fato que se repete de forma determinada, nasceu com o ruído infernal das máquinas da usina e da sirene das fábricas. A imensa transformação que sofreram as condições de produção no transcurso dos últimos anos, inclusive depois da influência das constantes vitórias da produção do grande capitalismo, obrigou também a mulher a adaptar-se às novas condições criadas pela realidade que a envolve, O tipo fundamental da mulher está em relação direta com o grau histórico do desenvolvimento econômico por que atravessa a humanidade. Ao mesmo tempo que se experimenta uma transformação das condições econômicas, simultaneamente à evolução das relações da produção, experimenta-se a mudança no aspecto psicológico da mulher. A mulher moderna, como tipo, não poderia aparecer a não ser com o aumento quantitativo da força de trabalho feminino assalariado. Há cinqüenta anos, considerava-se a participação da mulher na vida econômica como desvio do normal, como infração da ordem natural das coisas. As mentalidades mais avançadas, os próprios socialistas buscavam os meios adequados para que a mulher voltasse ao lar. Hoje em dia, somente os reacionários, encerrados em preconceitos e na mais sombria ignorância, são capazes de repetir essas opiniões abandonadas e ultrapassadas há muito tempo.

Clique aqui e confira a íntegra do texto.

Ponte Billinghurst e a Interoceánica: ponto sem retorno para o genocídio e a devastação da Amazônia


Por Pablo Cingolani / Bolpress.com

“Desenvolvimento” e Amazônia já não são mais que um oxímoron. À medida que avançam as políticas desenvolvimentistas e neo-extrativistas dos governos da região, avança a destruição da natureza e o etnocídio genocida dos povos originários que a habitam. A encruzilhada é mais desafiadora do que nunca: ou se detém a penetração capitalista ou desaparecerão os povos indígenas e as florestas.


Ou se detém a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Sul-Americana que estimulam de forma decidida o Estado brasileiro e os demais governos da região, os bancos multilaterais e as transnacionais, ou a selva e os índios serão imagens e recordações do museu de horrores da violenta conquista da última fronteira interna continental para abri-la ao saque de seus recursos naturais, a transformação irreversível de seu ecossistema e a extinção física de suas culturas.

O Brasil se converteu em uma das dez maiores economias do mundo e representa mais da metade da atividade econômica sul-americana. O PIB brasileiro corresponde a 44% do PIB da América do Sul. O novo monstro do capitalismo se fixou uma meta que coloca a Amazônia no centro do cenário mundial, convertendo-a no mais importante espaço estratégico deste ainda flamante século XXI: abrir a Amazônia à exploração massiva de seus recursos naturais, completando seu domínio territorial e sua inexorável marcha para o oeste.

O pré-requisito complementar para seu cumprimento era romper o obstáculo geográfico que as grandes florestas e os grandes rios representaram historicamente como freio à penetração do transporte, das máquinas, dos mercados e das grandes corporações. Daí que a abertura do território amazônico e sua vinculação física com os portos de exportação dos dois oceanos mais importantes da terra, o Atlântico e o Pacífico, e através deles, com o resto do mundo globalizado, é o objetivo principal da chamada Iniciativa para a Integração da Infreaestrutura Sul-Americana, mais conhecida como IIRSA, que se pôs em marcha em agosto do ano 2000 em Brasília. E apenas dez anos e alguns meses depois, o IIRSA está a ponto de consegui-lo.

Quando se terminarem as obras de construção da ponte Bilinghurst sobre o rio Madre de Dios, que unirá a cidade de Puerto Maldonado com o casario de El Triunfo, ambos no Departamento de Madre de Dios, no extremo sul-oriental da República do Peru, e com isso se culmine a construção do chamado Corredor Viário Interoceânico Sul Peru-Brasil, a história sul-americana mudará para sempre.

Acima de tudo, se terá conseguido cumprir o desejo imperial de dois séculos de unir os dois oceanos pelo coração do continente que segue sendo o que entesoura os mais vastos recursos de água, energia, biodiversidade e terras do planeta [1]. Logo, se concretizará o acordo secreto de quarenta anos atrás entre o então presidente norteamericano Richard Nixon, e o então ditador militar brasileiro Emílio Garrastazu Médici, de construir uma estrada interoceânica [2]. Finalmente, o mais vasto plano de recolonização capitalista da América do Sul, de assalto a seus recursos naturais e a serviço das transnacionais e o empresariado poderá exibir uma sonhada e primeira grande vitória sobre a geografia, a natureza e os povos, inaugurando pela primeira vez na história uma estrada de mais de 5.000 quilômetros com pontes que agüentam até 60 toneladas de peso e que permitirão o fluxo permanente de investimentos e mercadorias de um oceano a outro, e a conseqüente abertura irreversível do espaço amazônico ao mercado mundial.

A inauguração da ponte Bilinghurst e da bioceânica está prevista entre janeiro e abril de 2011, antes de que se levem a cabo as eleições presidenciais no Peru, marcadas para 10 de abril e onde Alan García, o grande impulsor das obras do IIRSA em seu país, se despede de sua segunda gestão. Seguramente concorrerão ao ato de inauguração a recém eleita presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, e o atual presidente da Bolívia, Evo Morales, que acaba de assinar com García uma ata para a construção de um trecho de estradas de 80 quilômetros que una de maneira direta a Bolívia com a interoceânica, que por centenas de quilômetros corre quase paralela à fronteira boliviana. O trecho Nareuda-Extrema-San Lorenzo, acordado pelos presidentes, é também parte dos planos do IIRSA [3].

O que acontecerá depois que se inaugure a ponte pênsil mais longa do Peru, de 722 metros de extensão? É importante tratar de pôr esta obra no contexto histórico e entender a magnitude dos trágicos impactos que acarretará.

Até agora, a navegação dos rios era a forma mais efetiva de penetração na selva. Quando se produziu o fenômeno do auge da extração do látex entre os anos 1870 e 1914, a primeira incorporação forçosa da Amazônia continental ao mercado mundial, os rios se converteram na via de ingresso de milhares e milhares de pessoas estranhas à selva que causaram um genocídio entre os povos indígenas que até hoje segue sendo ocultado e silenciado.

As atuais fronteiras entre Brasil, Peru e Bolívia nos territórios atravessados agora pela interoceânica e sua zona de influência nascem dessa invasão violenta que escravizou povos inteiros para obrigá-los a trabalhar na coleta do látex e que levou à desaparição física de muitos deles. Alguns se refugiaram monte adentro, nas cabeceiras dos rios onde estes já não eram navegáveis, e assim puderam evitar o extermínio. São os que atualmente conhecemos como “povos indígenas isolados ou povos indígenas isolados voluntariamente”.

Um século depois desta hecatombe étnica, muitos desses povos que elegeram a liberdade ao aniquilamento, foram forçados através de missões religiosas a sair de seu isolamento e se encontram na situação chamada de “contato inicial” com a sociedade nacional hegemônica de seus países, situação de extrema vulnerabilidade para a sobrevivência de seu modo de vida e de sua cultura, ameaçados pela lenta desaparição da mesma, tragédia conhecida como etnocídio.

A abertura da interoceánica e a inauguração da ponte Bilinghurst deixaram para trás a história fluvial da Amazônia: os rios já não serão a única maneira de penetrar o território, e menos um obstáculo para essa penetração. A primeira ponte sobre um grande rio da Amazônia Sul é o símbolo perfeito dessa globalização vigente, e da escala planetária das relações econômicas, políticas e sociais impostas no mundo.

Hoje, uma interconexão como a que provocará a ponte – por mais longínquas e abandonadas que pareçam as regiões onde esta influenciará desde o ponto de vista nacional – é possível para essa nova ordem mundial, baseada no desenvolvimento das forças produtivas em escala global e onde, por isso mesmo, as agressões e as ameaças se tornaram planetárias. A ponte, insistimos, é o símbolo perfeito do IIRSA que é o outro nome da globalização na América do Sul.

Quando estiver disponível para a utilização, calcula-se que uma média de 1500 caminhões de alta tonelagem passarão ali diariamente. Isto não será, senão, o impacto mais visível que terá a interconexão bioceânica na Amazônia. Por trás dos caminhões virão mais madeireiras ilegais, mais mineiros desesperados pelo ouro, mais colonização desordenada, mais narcotraficantes. E o que é pior: virão as empresas nacionais e transnacionais mineiras, petroleiras e agroexportadoras de mãos dadas com os governos para explorar até o último rincão da selva, agora aberta já não somente pelos rios, senão pelos caminhos do IIRSA, como o prova este primeiro corredor interoceânico.

Daí que sua inauguração não fará outra coisa do que acelerar os processos de genocídio e etnocídio históricos contra os povos indígenas, provocando a desaparição definitiva dos últimos povos indígenas isolados na selva amazônica ao ser invadidas suas terras como conseqüência da nova dinâmica de agressão que a estrada trará consigo; por sua vez, as comunidades indígenas e nativas já estabelecidas, também sofrerão o mesmo despojo: se radicalizará a invasão de seus territórios e eles se verão forçados a emigrar às cidades para proteger-se ou resistir a esta ofensiva terrorista.

Se hoje a situação atual das comunidades indígenas se caracteriza pelos conflitos permanentes pela defesa de seus territórios, o que acontecerá quando as empresas já não tiverem barreiras para poder ingressar onde desejarem, aí onde haja um recursos natural a ser explorado? Como dizíamos no começo, se não se detém a penetração capitalista, os povos indígenas desaparecerão, desaparecerão suas comunidades, seus modos de vida, seus costumes, suas tradições, e uma vez desaparecidos os povos que defendiam a selva – porque era essencial para sua sobrevivência e sua cultura – desaparecerá também a própria selva, queimada, desmatada e arrasada para a ocupação definitiva de seu espaço para os negócios agrícolas e pecuários extensivos – como já acontece nos estados brasileiros do Acre e de Rondônia – e a construção de novas cidades.

Lamentavelmente, com a ponte Bilinghurst, estamos chegando a um ponto sem retorno da trágica história sul-americana, especialmente da Amazônia. A condenação a estes planos de penetração e de abertura das florestas, com o vergonhoso custo humanos que isso trará consigo, deveria ser unânime. Não obstante, há que dizê-lo: por mais que o impacto, a agressão e a ameaça sejam globais, hoje poucos sabem, inclusive na América do Sul, o que está acontecendo na Amazônia Sul, e muito menos o que pode acontecer. Haveria que interromper o genocídio, haveria que interromper a devastação, mas estamos longe de poder fazê-lo. O mundo sensível deveria pronunciar-se e atuar. E nós, desde aqui, mobilizar-nos. Mais do que nunca.

______________________________________________________________________

Notas: [1] Os Estados Unidos da América do Norte forçaram o Brasil a declarar, em 1866, a libre navegação pelo Amazonas. O Peru abriu seus rios dois anos depois. A libre navegação não só propiciou o comercio, como também a biopirataria, como o provou Henry Wickham roubando 70.000 sementes de seringueiras em 1876. Com o tempo, isso acabou com a produção seringueira amazônica.

[2] Ver Roberto Ochoa: Nixon y la Interoceánica. La República, Lima, 21 de agosto de 2009

[3] Ver Declaración de Ilo, assinada em 19 de outubro de 2010, entre Alan García Pérez e Evo Morales Ayma. Ali se expressa “A decisão de iniciar no curso do primeiro semestre do ano 2011 as gestões necessárias para o financiamento e construção do asfaltado dos 80 quilômetros da estrada Nareuda – Extrema – San Lorenzo , o que permitirá vincular os Departamentos de Pando e Beni na Bolívia com a Região de Madre de Dios e o porto de Ilo no Oceano Pacífico, constituindo-se no novo eixo de interconexão com a estrada interoceânica do Sul”. Ver: http://portal.andina.com.pe/EDPEspeciales/especiales/2010/octubre/DECLARACION_ILO_2010.pdf

Río Abajo, Bolivia, 21/11/10

17 agosto, 2010

Ceceña fala da militarização da América Latina

A América Latina vive tempos de mudança com governos de esquerda e o protagonismo alcançado pelo movimento indígena. No entanto, a geopolítica diz-nos que ainda não derrotámos o império. Porque os EUA estão a militarizar a região com a desculpa de construir mega projectos de infraestruturas para se apoderarem dos recursos naturais e manter o controlo político com uma guerra preventiva. Para analisar este tema Upsidedownworld entrevistou Ana Esther Ceceña, doutora em Relações Económicas Internacionais pela Universidade de Paris I – Sorbonne, membro do Instituto de Investigações Económicas da UNAM (México) e Coordenadora do Observatório Latino-americano de Geopolítica, durante a sua estadia em Lima, no Peru, para participar no seminário Emancipações num Contexto Militarizado.

Yásser Gómez (YG) – O que significam a Iniciativa para a Integração da Infra-estrutura Regional Sul-americana (IIRSA) e o Plano Puebla Panamá para a América Latina?

Ana Ceceña (AC) – São dois mega projectos que se articulam entre si, inclusive geograficamente e que são semelhantes, pois são dois projectos de construção de infra-estruturas. Estão estruturados sob a ideia de canais ou linhas de comunicação para mercadorias e pessoas. Mas também vias de construção de linhas de electricidade, energéticas, oleodutos, gasodutos. Inclusive, no caso do Plano Puebla Panamá (PPP), também se está a pensar nestas mesmas linhas como auto-estradas de informação. A IIRSA está muito melhor planeada, com canais inter-oceânicos para ligar os dois oceanos, e com isso agilizar uma saída para a Europa, Ásia e EUA. A ideia é ter vias de chegada ao mercado mais importante, os EUA, que apresenta características económicas diferentes nas suas duas costas. O propósito é a extracção de recursos da América Latina e transferir as mercadorias que há para esses mercados. Estes dois planos não estão pensados como uma forma de alargamento dos mercados internos. Por isso a IIRSA projecta-se desde o coração da América do Sul para fora e para as duas costas. E o PPP está pensado desde o Panamá para o Norte. As rotas, os canais correm nesse sentido.

YG: - O Plano Mérida é um complemento do Plano Puebla Panamá no México? Qual o estado de concretização deste Plano?

AC: - O Plano Mérida (PM) é um complemento do Plano Puebla Panamá, mas na realidade o PPP, em si mesmo, já se transformou num Projecto Meso América, incorporando a Colômbia e muito explicitamente tem uma dimensão de segurança. Já o Plano Puebla Panamá assumiu as duas coisas, a integração energética que era a parte económica mais importante, e a integração da segurança. Assim já não é preciso o Plano Mérida, pois é mais um degrau para permitir que o PM, que se desenvolve no México, se concretize de forma muito natural, sem necessidade de muita articulação com o Plano Colômbia.

Porque o Plano Mérida corresponde directamente ao Plano Colômbia, é o mesmo projecto adaptado às circunstâncias, tanto geográficas como temporais. Já se assumiu toda a experiência adquirida com o Plano Colômbia e a estrutura é idêntica: ajuda para questões de segurança e uma muito pequena para o desenvolvimento, que é como avançam alguns dos projectos do Plano Colômbia. Temos, então, uma super-posição do Plano Mérida na parte norte, projecto Meso-América, enlaçando essa parte norte com a Colômbia, o Plano Colômbia na Colômbia e Peru. Além disso há ainda a Aliança para a Segurança e Prosperidade da América do Norte (ASPAN), que também é um projecto de segurança e energético, mas que difere no sentido de que é mais a criação de um bloco regional o que está implícito nesse plano.

YG: - Depois de concretizadas as fases de invasão denominadas Plano Colômbia e Plano Patriota pelos EUA na Colômbia, o que é que se segue?

AC: - A expansão do Plano Colômbia é para duas partes do continente, uma para norte, o que se está a conseguir com o Plano México e com as acusações que se estão a fazer depois do ataque da Colômbia a Sucumbios, no Equador, arma-se um pouco o cenário que é no México que está o departamento internacional das FARC e que, por isso, se justifica o Plano México e, digamos, as mesmas políticas que na Colômbia. O outro ramo é para Sul e Este, o que se está a tentar por várias caminhos. O que mais se projectou foi o do Paraguai como se fosse um braço do Plano Colômbia até à Fronteira Tripla e, naturalmente, o que faz isso, é o cobre na área boliviana, mas também permite um posicionamento junto do Aquífero Guarani; além disso como epicentro da parte do cone rioplatense da América do Sul.

Isto também se tentou em 2006, fez-se a montagem de que tinha sido sequestrada a irmã do ex-presidente o que, portanto, seria indicativo que haveria células e campos de treino das FARC no Paraguai. Com esta argumentação tão precária estava-se a querer montar aí uma operação do Plano Colômbia, mas também se tentava, e de facto conseguiu-se já há uns tempos, envolver o Peru no Plano Colômbia, porque os recursos deste Plano não são apenas para a Colômbia mas para toda a área. Assim, se os recursos são para aquela área, incluindo o Peru e o Equador, está-se também a incluir os que se estão a comprometer, pois esta ajuda tem sempre uma contrapartida, e essa é outro caminho de expansão.

Mas o que hoje está em jogo depois do Plano Patriota, que se inaugurou precisamente com o ataque a Sucumbios, é a possibilidade de os EUA poderem pôr em marcha uma politica de guerra preventiva através de um terceiro país. E digo EUA porque a operação de Sucumbios foi desenhada fundamentalmente a partir da base de Manta, e os seus executantes foram em grande parte norte-americanos. Assim, está de facto inaugurada a actuação deles directamente a partir da Colômbia, mas também a possibilidade de a Colômbia, tendo como émulo a política norte-americana, se lançar também numa – se se quiser mais limitada regionalmente – guerra preventiva, na defesa dos seus interesses, fora do seu território, em territórios de outras nações. É a marca do modelo e, se não fora a muito enérgica reacção do governo equatoriano, já se estaria a perfilar a intervenção directa em qualquer país do continente.

YG: - No tabuleiro geopolítico da região que importância tem o Peru nos planos hegemónicos dos EUA quando tenta estabelecer uma base militar na região de Ayacucho a sul dos Andes?

AC: - Há já algum tempo que se anda a falar de duas bases no Peru, uma na zona de Chiclayo e agora também se fala da de Ayacucho. Inclusive, há por aí gente a dizer que é na zona de Quinua (Ayacucho), que a querem estabelecer. Mas uma base de um tipo novo, muito flexível, mais eficaz, mas também mais pequena, na verdade uma base mais adequada ao que são presentemente as condições de actuação militar. Mas também são bases de trabalho de monitorização e vigilância. Se observarmos a posição geográfica do Peru e avaliarmos a situação política e geopolítica do continente, verificamos que, realmente, não há melhor local para se ter um acesso mais directo e mais versátil a algumas regiões que agora estão a dar preocupações, como a zona sul da Bolívia, a zona do gás.

Também a zona norte da Argentina, que é petrolífera, está bem situada não só em termos de recursos, mas também tendo em vista o seu potencial papel na desestabilização de governos, se e quando se considerar conveniente. A base Ayacucho está em linha recta para La Paz, de forma que, de acordo com o raio de acção – mesmo o mínimo – que têm actualmente os aviões de guerra, La Paz está ao alcance da base de Ayacucho sem qualquer problema. Ylo de Chiclayo aponta mais para a zona amazónica, vejo-a como uma oportunidade, por um lado, de garantir a entrada pelo rio para Iquitos e a zona amazónica, mas também para manter, por um dos lados, o Equador sob vigilância. A Colômbia está garantida, mas o Equador que já não irá ter uma base, pois, além de se ter rebelado elevou à categoria de constitucional o Equador como um território de Paz que, por essa razão, não admite a presença de bases militares estrangeiras, nem tropas estrangeiras no seu território. Assim, aí fechou-se-lhes uma posição, e essa posição parece estar a mudar-se, quer para cima quer para baixo. Para baixo seria a base de Chiclayo e também a de Ayacucho, porque fica com o mesmo alcance. E para cima, para a costa colombiana, possivelmente na costa de Choco.

Os dois eixos que se estão a mover nessas novas posições, o quadro de quais serão as melhores posições a estabelecer e que nos levam a pensar no Peru são fundamentalmente o de garantir o acesso aos recursos naturais estratégicos e o do controlo da insurreição ou o controlo da possível formação de coligações não hegemónicas. Estas duas coisas estão apontadas ao coração da América do Sul, de modo que o ter posições no Peru ou ter uma situação mais permissiva para a chegada d tropas e a mobilização de tropas. Por um lado, facilita-lhes o acesso aos recursos naturais peruanos, que são muitos e valiosos, e aos recursos de países vizinhos, mas também lhes facilita, e talvez isso seja conjunturalmente mais importante, o flanquear a Bolívia e, a partir daí, uma linha de acesso mais directo até ao centro da Venezuela.

Publicado por: www.galizacig.com

06 agosto, 2010

El origen del mundo

Eduardo Galeano - El Libro de los Abrazos

Hacia pocos años que había terminado la guerra de España y la cruz y la espada reinaban sobre las ruinas de la República.

Uno de los vencidos, un obrero anarquista, recién salido de la cárcel, buscaba trabajo. En vano revolvía cielo y tierra. No había trabajo para un rojo. Todos le ponían mala cara, se encogían de
hombros o le daban la espalda. Con nadie se entendía, nadie lo escuchaba. El vino era el único amigo que le quedaba. Por las noches, ante los platos vacíos, soportaba sin decir nada los reproches de su esposa beata, mujer de misa diaria, mientras el hijo, un niño pequeño, le recitaba el catecismo.

Mucho tiempo después, Josep Verdura, el hijo de aquel obrero maldito, me lo contó. Me lo contó en Barcelona, cuando yo llegué al exilio. Me lo contó: él era un niño desesperado que quería salvar a su padre de la condenación eterna y el muy ateo, el muy tozudo, no entendía razones.

- Pero papá - le dijo Josep, llorando -. Si Dios no existe, quién hizo el mundo?
- Tonto -- dijo el obrero, cabizbajo, casi en secreto -. Tonto. Al mundo lo hicimos nosotros, los albañiles.

09 junho, 2010

O mundo

Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.

— O mundo é isso — revelou —. Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.

De Eduardo Galeano - O Livro dos Abraços

27 maio, 2010

Crise ecológica, capitalismo, altermundialismo: um ponto de vista ecossocialista

Da Fundação Lauro Campos

Os ecologistas se enganam se crêem poder abrir mão da crítica de Marx ao capitalismo: uma ecologia que não leve em conta a relação entre "produtivismo" e lógica do lucro está destinada ao fracasso - ou pior, à sua recuperação pelo sistema. Os exemplos não faltam... A ausência de uma postura anticapitalista coerente levou a maior parte dos partidos verde europeus - França, Alemanha, Itália, Bélgica - a tornar-se simples parceiro "ecorreformista" da gestão social-liberal do capitalismo pelos governos de centro-esquerda. A opinião é de Michael Löwy em artigo para o n° 14 da revista
Margem Esquerda reproduzido por CartaMaior, 24-05-2010.

Grandezas e limites da ecologia

A grande contribuição da ecologia foi e continua sendo nos fazer tomar consciência dos perigos que ameaçam o planeta como consequência do atual modelo de produção e consumo. O crescimento exponencial das agressões ao meio ambiente e a ameaça crescente de uma ruptura do equilíbrio ecológico configuram um quadro catastrófico que coloca em questão a própria sobrevivência da vida humana. Estamos diante de uma crise de civilização que exige mudanças radicais.

Os ecologistas se enganam se crêem poder abrir mão da crítica marxiana do capitalismo: uma ecologia que não leve em conta a relação entre "produtivismo" e lógica do lucro está destinada ao fracasso - ou pior, à sua recuperação pelo sistema. Os exemplos não faltam... A ausência de uma postura anticapitalista coerente levou a maior parte dos partidos verde europeus - França, Alemanha, Itália, Bélgica - a tornar-se simples parceiro "ecoreformista" da gestão social-liberal do capitalismo pelos governos de centro-esquerda.

Considerando os trabalhadores irremediavelmente destinados ao produtivismo, alguns ecologistas ignoram/descartam o movimento operário e inscrevem em suas bandeiras: "nem esquerda, nem direita".

Ex-marxistas convertidos à ecologia declaram apressadamente "adeus à classe operária" (André Gorz), enquanto outros autores (Alain Lipietz) insistem na necessidade de abandonar o "vermelho" - isto é, o marxismo ou o socialismo - para aderir ao "verde", novo paradigma que trará uma resposta a todos os problemas econômicos e sociais.

O ecossocialismo

O que é então o ecossocialismo? Trata-se de uma corrente de pensamento e ação ecológicos que toma como suas as aquisições fundamentais do marxismo - ao mesmo tempo que se livra de seus entulhos produtivistas.

Para os ecossocialistas a lógica do mercado e do lucro - bem como aquela do defunto do autoritarismo burocrático, o "socialismo real" - são incompatíveis com as exigências de preservação do meio ambiente. Ao mesmo tempo que criticam a ideologia das correntes dominantes do movimento operário, eles sabem que os trabalhadores e suas organizações são uma força essencial para uma transformação radical do sistema e para a construção de uma nova sociedade socialista e ecológica.

Essa corrente está longe de ser politicamente homogênea, mas a maior parte de seus representantes compartilha alguns temas. Rompendo com a ideologia produtivista do progresso - em sua forma capitalista e/ou burocrática - e oposta à expansão ao infinito de um modo de produção e consumo destruidor da natureza, o ecossocialismo representa uma tentativa original de articular as ideias fundamentais do socialismo marxista com as contribuições da crítica ecológica.

O raciocínio ecossocialista se apoia em dois argumentos essenciais:

1) o modo de produção e consumo atual dos países capitalistas avançados, fundado sobre uma lógica de acumulação ilimitada (do capital, dos lucros, das mercadorias), desperdício de recursos, consumo ostentatório e destruição acelerada do meio ambiente, não pode de forma alguma ser estendido para o conjunto do planeta, sob pena de uma crise ecológica maior. Segundo cálculos recentes, se o consumo médio de energia dos EUA fosse generalizado para o conjunto da população mundial, as reservas conhecidas de petróleo seriam esgotadas em 19 dias. Esse sistema está, portanto, necessariamente fundado na manutenção e agravamento da desigualdade entre o Norte e o Sul;

2) de qualquer maneira, a continuidade do "progresso" capitalista e a expansão da civilização fundada na economia de mercado - até mesmo sob esta forma brutalmente desigual - ameaça diretamente, a médio prazo (toda previsão seria arriscada), a própria sobrevivência da espécie humana, em especial por causa das consequências catastróficas da mudança climática.

A racionalidade limitada do mercado capitalista, com seu cálculo imediatista das perdas e lucros, é intrinsecamente contraditória com uma racionalidade ecológica, que leve em conta a temporalidade longa dos ciclos naturais.

Não se trata de opor os "maus" capitalistas ecocidas aos "bons" capitalistas verdes: é o próprio sistema, fundado na competição impiedosa, nas exigências de rentabilidade, na corrida pelo lucro rápido, que é destruidor dos equilíbrios naturais. O pretenso capitalismo verde não passa de uma manobra publicitária, uma etiqueta buscando vender uma mercadoria, ou, no melhor dos casos, uma iniciativa local equivalente a uma gota-d'água sobre o solo árido do deserto capitalista.

Contra o fetichismo da mercadoria e a autonomização reificada da economia pelo neoliberalismo, o que está em jogo no futuro para os ecossocialistas é pôr em prática uma "economia moral" no sentido dado por Edward P. Thompson a este termo, isto é, uma política econômica fundada em critérios não monetários e extraeconômicos: em outras palavras, a reconciliação do econômico no ecológico, no social e no político.

As reformas parciais são totalmente insuficientes: é preciso substituir a microrracionalidade do lucro pela macrorracionalidade social e ecológica, algo que exige uma verdadeira mudança de civilização . Isso é impossível sem uma profunda reorientação tecnológica, visando a substituição das fontes atuais de energia por outras não poluentes e renováveis, como a eólica ou solar . A primeira questão colocada é, portanto, a do controle sobre os meios de produção e, principalmente, sobre as decisões de investimento e transformação tecnológica, que devem ser arrancados dos bancos e empresas capitalistas para tornarem-se um bem comum da sociedade.

Certamente, a mudança radical se relaciona não só com a produção, mas também com o consumo. Entretanto, o problema da civilização burguês-industrial não é - como muitas vezes os ecologistas argumentam - "o consumo excessivo" pela população e a solução não é uma "limitação" geral do consumo, sobretudo nos países capitalistas avançados. É o tipo de consumo atual, fundado na ostentação, no desperdício, na alienação mercantil, na obsessão acumuladora, que deve ser colocado em questão.

Ecologia e altermundialismo

Sim, nos responderão, é simpática essa utopia, mas por enquanto é preciso ficar de braços cruzados? Certamente não! É preciso lutar por cada avanço, cada medida de regulamentação, cada ação de defesa do meio ambiente. Cada quilômetro de estrada bloqueado, cada medida favorável aos transportes coletivos é importante; não somente porque retarda a corrida em direção ao abismo, mas porque permite às pessoas, aos trabalhadores, aos indivíduos se organizar, lutar e tomar consciência do que está em jogo nesse combate, de compreender, por sua experiência coletiva, a falência do sistema capitalista e a necessidade de uma mudança de civilização.

É nesse espírito que as forças mais ativas da ecologia estão engajadas, desde o início, no movimento altermundialista. Tal engajamento corresponde à tomada de consciência de que os grandes embates da crise ecológica são planetários e, portanto, só podem ser enfrentados por uma démarche resolutamente cosmopolítica, supranacional, mundial. O movimento altermundialista é sem dúvida o mais importante fenômeno de resistência antisistêmica do início do século XXI.

Essa vasta nebulosa, espécie de "movimento dos movimentos" que se manifesta de forma visível nos Fóruns Sociais - regionais e mundiais - e nas grandes manifestações de protesto - contra a Organização Mundial do Comércio (OMC), o G8 ou a guerra imperial no Iraque - não corresponde às formas habituais de ação social ou política. Ampla rede descentralizada, ele é múltiplo, diverso e heterogêneo, associando sindicatos operários e movimentos camponeses, ONGs e organizações indígenas, movimentos de mulheres e associações ecológicas, intelectuais e jovens ativistas. Longe de ser uma fraqueza, essa pluralidade é uma das fontes da força, crescente e expansiva, do movimento.

Pode-se afirmar que o ato de nascimento do altermundialismo foi a grande manifestação popular que fez fracassar a reunião da OMC em Seattle, em 1999. A cabeça visível desse combate era a convergência surpreendente de duas forças: turtles and teamsters, ecologistas vestidos de tartarugas (espécie ameaçada de extinção) e sindicalistas do setor de transportes. Portanto, a questão ecológica estava presente, desde o início, no coração das mobilizações contra a globalização capitalista neoliberal. A palavra de ordem central desse movimento, "o mundo não é uma mercadoria", visa também, evidentemente, o ar, a água, a terra, isto é, o ambiente natural, cada vez mais submetido aos ditames do capital.

Podemos afirmar que o altermundialismo comporta três momentos: 1) o protesto radical contra a ordem existente e suas sinistras instituições: o FMI, o Banco Mundial, a OMC, o G8; 2) um conjunto de medidas concretas, propostas passíveis de serem imediatamente realizadas: a taxação dos capitais financeiros, a supressão da dívida do Terceiro Mundo, o fim das guerras imperialistas; 3) a utopia de um "outro mundo possível", fundado sobre valores comuns como liberdade, democracia participativa, justiça social e defesa do meio ambiente.

A dimensão ecológica está presente nesses três momentos: ela inspira tanto a revolta contra um sistema que conduz a humanidade a um trágico impasse, quanto um conjunto de propostas precisas - moratória sobre os OGMs (Organismos Geneticamente Modificados), desenvolvimento de transportes coletivos gratuitos -, bem como a utopia de uma sociedade vivendo em harmonia com os ecossistemas, esboçada pelos documentos do movimento. Isso não quer dizer que não existam contradições, fruto tanto da resistência de setores do sindicalismo às reivindicações ecológicas, percebidas como uma "ameaça ao emprego", quanto da natureza míope e pouco social de algumas organizações ecológicas. Mas uma das características mais positivas dos Fóruns Sociais, e do altermundialismo em seu conjunto, é a possibilidade do encontro, debate, diálogo e da aprendizagem recíproca de diferentes tipos de movimentos.

É preciso acrescentar que o próprio movimento ecológico está longe de ser homogêneo: é muito diverso e contem um espectro que vai desde ONGs moderadas habituadas ao lobby como forma de pressão, até os movimentos combativos inseridos num trabalho de base militante; da gestão "realista" do Estado (no nível local ou nacional) às lutas que colocam em questão a lógica do sistema; da correção dos "excessos" da economia de mercado às iniciativas de orientação ecossocialista.

Essa heterogeneidade caracteriza, diga-se de passagem, todo o movimento altermundialista, mesmo com a predominância de uma sensibilidade anticapitalista, sobretudo na América Latina. É a razão pela qual o Fórum Social Mundial, precioso lugar de encontro - como explica tão bem nosso amigo Chico Whitaker - onde diferentes iniciativas podem fincar raízes, não pode se tornar um movimento sociopolítico estruturado, com uma "linha" comum, resoluções adotadas por maioria etc.

É importante sublinhar que a presença da ecologia no "movimento dos movimentos" não se limita às organizações ecológicas - Greenpeace, WWF, entre outras. Ela se torna cada vez mais uma dimensão levada em conta, na ação e reflexão, por diferentes movimentos sociais, camponeses, indígenas, feministas, religiosos (Teologia da Libertação).

Um exemplo impressionante dessa integração "orgânica" das questões ecológicas por outros movimentos é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que, com seus camaradas da rede internacional Via Campesina, é um dos pilares do Fórum Social Mundial e do movimento altermundialista. Hostil desde sua origem ao capitalismo e sua expressão rural, o agronegócio, o MST integrou cada vez mais a dimensão ecológica no seu combate por uma reforma agrária radical e um outro modelo de agricultura. Durante a celebração do vigésimo aniversário do movimento, no Rio de Janeiro em 2005, o documento dos organizadores declarava: nosso sonho de "um mundo igualitário, que socialize as riquezas materiais e culturais", um novo caminho para a sociedade, "fundado na igualdade entre os seres humanos e nos princípios ecológicos".

Isto se traduziu nas ações - por diversas vezes à margem da "legalidade" - do MST contra os OGMs, o que é tanto um combate contra a tentativa das multinacionais - Monsanto, Syngenta - de controlar totalmente as sementes, submetendo os camponeses à sua dominação, como uma luta contra um fator de poluição e contaminação incontrolável do campo. Assim, graças a uma ocupação "selvagem", o MST obteve em 2006 a expropriação do campo de milho e soja transgênicos da Syngenta Seeds no Estado do Paraná, que se tornou o assentamento camponês Terra Livre. É preciso mencionar também seu enfrentamento às multinacionais de celulose que multiplicam, sobre centenas de milhares de hectares, verdadeiros "desertos verdes", florestas de eucaliptos (monocultura) que secam todas as fontes d'água e destroem toda a biodiversidade. Esses combates são inseparáveis, para os quadros e ativistas do MST, de uma perspectiva anticapitalista radic al.

As cooperativas agrícolas do MST desenvolvem, cada vez mais, uma agricultura biologicamente preocupada com a biodiversidade e com o meio ambiente em geral, constituindo assim exemplos concretos de uma forma de produção alternativa. Em julho de 2007, o MST e seus parceiros do movimento Via Campesina organizaram em Curitiba uma Jornada de Agroecologia, com a presença de centenas de delegados, engenheiros agrônomos, universitários e teólogos da libertação (Leonardo Boff, Frei Betto).

Naturalmente, essas experiências de luta não se limitam ao Brasil, sendo encontradas sob formas diferentes em muitos outros países, não apenas no Terceiro Mundo, constituindo-se numa parte significativa do arsenal combativo do altermundialismo e da nova cultura cosmopolítica da qual ele é um dos portadores.

* * *

O fracasso retumbante da Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, de dezembro de 2009, confirma mais uma vez, para quem ainda tinha dúvidas, a incapacidade de governos à serviço dos interesses do capital em enfrentar o problema. Em vez de um acordo internacional obrigatório, com reduções substanciais de emissões de gazes com efeito estufa nos países industrializados - um mínimo de 40% seria necessário - seguida de medidas mais modestas nos países emergentes (China, Índia, Brasil), os Estados Unidos impuseram, com o apoio da Europa e a cumplicidade da China, uma "declaração" completamente vazia, que faz senão reiterar o óbvio : precisamos impedir que a temperatura do planeta suba mais de 2°C.

A única esperança é o movimento social, altermundialista e ecológico, que se expressou em Copenhagen numa grande manifestação de rua - 100 mil pessoas - com o apoio de Evo Morales, cujas declarações anticapitalistas sem ambiguidades foram uma das poucas expressões criticas na conferencia "oficial". Os manifestantes, assim como o Fórum alternativo KlimaForum, levantaram a palavra de ordem "Mudemos o sistema, não o clima!" Evo Morales convocou um encontro de governos progressistas e movimentos sociais em Cochabamba (abril de 2010) com o objetivo de organizar a luta para salvar a Mãe-Terra, a Pacha-Mama, da destruição capitalista.

Fonte: Ecodebate, 26/05/2010, publicado pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.

22 dezembro, 2009

Pesquisa aponta impactos da UHE de Estreito em Filadélfia e Carolina


Da agência Informação Social

A geógrafa e mestre em Desenvolvimento Regional e Agronegócio pela Universidade Federal do Tocantins (UFT), Patrícia Rocha Chaves, desenvolveu um estudo sobre os impactos gerados pela Usina Hidrelétrica de Estreito nas cidades de Filadélfia, localizada no Estado do Tocantins, e Carolina, no Maranhão, os dois municípios são divididos pelo Rio Tocantins. A pesquisadora explica no seu trabalho, intitulado As relações sócio-territoriais na construção da Usina Hidrelétrica de Estreito (MA) e a (Re) produção do espaço urbano nas cidades de Carolina (MA) e Filadélfia (TO).


Patrícia Rocha afirma que os ribeirinhos da região amazônica têm enfrentado vários problemas oriundos dos impactos dos grandes projetos, tanto fundiários quanto as políticas públicas de desenvolvimento dos governos do Fernando Henrique Cardoso (PSDB), o Plano Avança Brasil, e de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com as metas do Plano de Aceleração do crescimento (PAC).


“Esses empreendimentos têm deixado de lado as populações ribeirinhas/camponesas e tradicionais, indígenas ou quilombolas”, excluídas do debate da construção da obra. “No caso de Estreito, até então, nada foi decidido sobre o que será feito em relação às exigências dessas populações que vem causando grandes conflitos territoriais”, aponta um trecho do trabalho.


Na dissertação, é descrito que sete territórios indígenas situam-se na bacia hidrográfica do Rio Tocantins, na qual se insere o projeto: Avá Canoeiro, Kraolândia, Funil, Xerente, Apinayé, Krikati e Mãe Maria. Mas na pesquisa, Patrícia observou que os líderes indígenas dos povos Timbira têm grandes incertezas em relação à hidrelétrica. Segundo ela, existe um impasse entre os indígenas que, por um lado, buscam negociar uma indenização junto à empresa, pelos impactos sofridos, e por outro, a empresa diz que os seus territórios não serão atingidos pelo lago. Os indígenas “tem sido completamente negligenciados tanto pelo poder público quanto pelo poder privado”, conforme trecho da dissertação.


Patrícia afirma que não apenas os indígenas encontram-se ameaçados, mas também as quebradeiras de coco babaçu, do bairro de Palmatuba em Babaçulândia-TO, que teriam todas as suas atividades produtivas extintas pela UHE de Estreito. Outra atividade que seria demasiadamente comprometida é a pesca, pois durante cinco anos ficará proibida a atividade no lago. E existem outras atividades também praticadas por eles nas quais só a existência do rio em sua atual dinâmica poderia lhes garantir , como a própria agricultura de subsistência e a utilização dos seus barcos, que servem de transporte de passageiros para as outras cidades que situam-se à margem do rio, o que lhes garante o sustento.


A pesquisado coloca em sua dissertação que pesquisar sobre hidrelétricas, dentro da geografia, não é uma discussão simples e não foi possível escolher apenas uma área da ciência geográfica e recorreu praticamente a todos os campos conceituais da geografia. Na discussão da questão ambiental, a pesquisadora optou em analisar os impactos ambientais sobre o foco da ecologia política utilizando os autores: Carlos Walter Porto-Gonçalves, Maurício Waldman, Célio Bermann e Wagner da Costa Ribeiro.


Clique aqui e confira a matéria na íntegra.

26 junho, 2009

Emir Sader: crise não marcará fim do capitalismo

Para Emir, é preciso analisar a crise atual “sem analogia mecânica” com, por exemplo, a crise capitalista de 1929. “Já chegaram a dizer até que agora vem guerra. Guerra entre quem?”. A seu ver, a crise deve ser entendida nos marcos da trajetória do capitalismo no século 20. Como contrapartida, a crise trouxe novos parâmetros para o debate: “A História voltou a ficar aberta – se é que já chegou a fechar. As alternativas para a esquerda estão mais abertas que antes", defendeu durante seminário promovido por PT, PC do B, Fundação Maurício Grabois, Fundação Perseu Abramo e Corint.
André Cintra - Vermelho

“É verdade que a hegemonia americana se enfraquece. Mas não aparece no horizonte nenhum país candidato a potência que possa substituir os Estados Unidos”, disse Sader às cerca de 250 pessoas presentes no Hotel Braston, em São Paulo, no seminário promovido por PT, PCdoB, Fundação Maurício Grabois, Fundação Perseu Abramo e Corint.

Como contrapartida, ele afirmou que a crise trouxe novos parâmetros para o debate: “A História voltou a ficar aberta – se é que já chegou a fechar. As alternativas para a esquerda estão mais abertas que antes.”

Emir ponderou que qualquer interpretação da crise deve levar em conta os princípios do marxismo – que “não são dogmas nem axiomas”. Um dos princípios mais relevantes – por refletir um drama atual do marxismo – é a ideia de que “sem teoria revolucionaria não há prática revolucionária”.

“A primeira geração de marxistas – Marx, Engels, Lênin, Gramsci, Rosa Luxemburgo – era de pensadores revolucionários que também eram ativistas revolucionários”, lembra Emir. “Hoje a ruptura provoca a tendência de a intelectualidade girar sobre si mesma e os partidos serem muito pragmáticos.”

Contexto da crise
Para Emir, é preciso analisar a crise atual “sem analogia mecânica” com, por exemplo, a crise capitalista de 1929. “Já chegaram a dizer até que agora vem guerra. Guerra entre quem?”. A seu ver, a crise deve ser entendida nos marcos da trajetória do capitalismo no século 20.

Da Segunda Guerra Mundial até a década de 1970, o sistema viveu um longo ciclo de prosperidade – o “período de ouro”, conforme a definição do historiador anglo-egípcio Erich Hobsbawn. “Houve um grande crescimento industrial até na periferia do capitalismo – no Brasil, no México, na Argentina”, lembra Emir. O ciclo seguinte, no entanto, é de recessão econômica – mas a queda do socialismo fortalece os Estados Unidos.

“Quem ganha reconta a história, narra os fatos – e a vitória ideológica do capitalismo foi de proporções vitais.” O socialismo sai da agenda, perde em atualidade. Países como China e Cuba passam a uma “situação de defensiva histórica”. Além disso, o neoliberalismo fragmentou a sociedade, jogou os trabalhadores no trabalho informal, dificultou a resistência. “A derrota do socialismo serve, afinal, para desqualificar a política.”

A financeirização
Com o anúncio da “vitória da economia liberal”, os novos embates em pauta se davam em temas como “democracia e totalitarismo”, “ocidente versus terrorismo”. Já na economia, “consolida-se a passagem do Estado de bem-estar social para a fase neoliberal, de desregulamentação”. É a fase da financeirização radical – ou, nas palavras de Emir Sader, “um câncer incrustado dentro do capitalismo”.

“Marx dizia que o capitalismo é o sistema que faz crescer as forças produtivas como nenhum outro – seu problema era não distribuir a riqueza. O que ocorre, sob a hegemonia financeira, é a transferência de recursos do setor produtivo para o setor especulativo, que não produz bens nem serviços”, explica Emir. Na América Latina, segundo o professor, a “euforia neoliberal não trouxe vantagens econômicas. As três maiores economias mostraram fragilidade – o México quebrou em 1994, o Brasil em 1999 e a Argentina em 2002 e 2003”.

Para Emir Sader, a atual crise do capitalismo emerge em meio a “um período de relativa estabilidade, com uma única grande potência. Existe uma turbulência prolongada sem resolução previsível, mas qualquer resolução será de alternativas dentro do capitalismo, sem ruptura”.

Daí sua conclusão de que “o capitalismo não termina com a crise – porque ele não cai por si mesmo, tem de ser derrubado –, nem tampouco o neoliberalismo acabou”. Nessas condições, o Estado age tal qual um “médico acionado quando o capitalismo sofre doenças”.

Reflexos
A crise abre cenários distintos nas várias partes do mundo. Barack Obama assume a Casa Branca para enfrentar não só a crise econômica – mas também os impasses de duas guerras abertas e não-resolvidas. Com uma vantagem, brinca Emir: “É praticamente o único país com iniciação política no mundo: ele faz a guerra e também inicia as negociações de paz”. Na geopolítica, o tom do discurso muda – com Cuba e Irã, por exemplo.

Por outro lado, Emir Sader sustenta que “a crise revela a falência da Europa como conglomerado autônomo. Em tese, se era para ter uma moeda alternativa agora, seria o euro”. Mas, ao contrário, as ideias da direita voltam com força no Velho Mundo, e o continente se comporta como um “aliado subordinado dos Estados Unidos”.

Num mundo dominado pelo “monopólio das armas, do dinheiro e das palavras”, há brutais “guerras humanitárias” seguidas de intervenções políticas. É um “braço imperialista renovado na época unipolar”. Por isso, afirma Emir, iniciativas como a Unasul (União de Nações Sul-Americanas) são importantes.

O “novo tempo” da América Latina possibilitou que a resolução do conflito entre Colômbia e Equador tenha ocorrido “no nosso âmbito”, sem o arbítrio dos Estados Unidos ou da ONU. O continente reage. “É extraordinário ver que o primeiro país a romper formalmente com Israel foi a Bolívia, num gesto de solidariedade baseada em seus próprios princípios.”

Saídas
Para a economia brasileira, a crise é um teste. “Estamos pagando um preço caro”, afirma Emir. Além de queda da demanda externa e, consequentemente, da exportação, houve um refluxo dos créditos. Na opinião do professor, o governo precisa “encampar a luta contra o monopólio da hegemonia neoliberal”, diversificar ainda mais o comércio internacional e aumentar o peso do mercado interno, taxando o capital externo.

“Lula manteve a hegemonia do capital financeiro e a autonomia do Banco Central, ainda que tenha retomado o papel do desenvolvimento. Sem abandonar a conciliação, a aliança de classes, sem deixar de ser parêntesis do modelo internacional, o governo Lula não será alternativa de um novo modelo”, criticou Emir. A seu ver, é preciso resistir ainda à precarização e à alienação do trabalho, voltando também a estimular a sindicalização. “Mesmo o Fórum Social Mundial nunca vai avançar muito se tiver só o tema da cidadania e não tratar do trabalho”.

Sobre a nefasta atuação da mídia na América Latina, Emir Sader opina que há “um único jornal bom” – o diário mexicano La Jornada, que tem oito edições regionais. “O Página 12, da Argentina, é bom, mas é um jornal pequeno.”. O Brasil, por sua vez, padece de um governo que, na área de comunicação, “não fez quase nada – apenas diversificou um pouco a distribuição de publicidade”. A TV Brasil, na sua opinião, “é um fracasso”.

“Teremos as heranças das transformações que o Lula fez e das que ele não fez”, sintetiza Emir. Além de “quebrar a hegemonia do capital financeiro”, o Brasil, “país mais desigual do continente mais desigual”, tem adotar “um modelo de desenvolvimento agrário que prescinda do agronegócio”.

Outra prioridade, segundo Emir, é “construir uma opinião pública alternativa – pela internet, com os blogs, mas também democratizando a comunicação, a TV, o lazer”. A maior dificuldade, diz ele, “é convencer as massas de que nossa utopia é a justiça social”. Seria uma resposta ao “individualismo brutal”, que leva as pessoas a pensarem apenas numa coisa: “O que vai acontecer comigo?”.

Fonte: Fundação Maurício Grabois/Agência Carta Maior

20 maio, 2009

Marx, as crises e a "desregulação financeira"

Leda Paulani*
Da Agência Carta Maior

No terceiro texto da Série ‘Marxismo e Século XXI” - seminário virtual organizado por Carta Maior, com curadoria do sociólogo Chico de Oliveira - a economista Leda Paulani aborda a conceituação das crises cíclicas do capitalismo. Ela explica que Marx enxerga nas crises uma característica definidora do capitalismo, o modo pelo qual o sistema funciona, não o modo pelo qual ele falha. A causa das crises, do ponto de vista marxista, é sempre o excesso de acumulação de capital, que, a partir de determinado momento, não encontra condições de se realizar. Ao permitir a queima de capital, as crises liberam espaço para a continuidade do processo de acumulação. Há quase três décadas, porém, o capitalismo vem sendo comandado pelo lado financeiro, e isso introduziu mudanças significativas na forma de operar do sistema. Leia o artigo de Leda Paulani.

Em artigo de seu clássico livro The Wordly Philosophers, Robert Heilbroner afirma que, conforme Marx, as crises servem para renovar a capacidade de expansão do sistema, sendo assim o modo pelo qual ele funciona, não o modo pelo qual ele falha. Não há forma mais concisa para expressar o que pensava o profeta mouro desses fenômenos.

Bem ao contrário do que postula a economia convencional, para a qual o estado normal da economia capitalista é a harmonia e o equilíbrio, sendo as crises momentos incomuns, rapidamente corrigidos se o mercado for deixado em paz, Marx enxerga nesses eventos a característica definidora do capitalismo. Vendo-o como um sistema complexo e dinâmico, movido a contradições, esses episódios são, para ele, tão naturais quanto necessários.

Na visão de Marx, a crise é o momento em que as contradições se materializam e exigem solução, sob pena de se comprometer a viabilidade do sistema. A causa das crises é sempre o excesso de acumulação de capital, que, a partir de determinado momento, não encontra condições de se realizar. Ao permitir a queima de capital, as crises liberam o espaço para a continuidade do processo de acumulação.

Tanto nos momentos de aceleração e auge quanto nos de desaceleração e crise, o lado produtivo e o lado financeiro operam combinadamente, cabendo ao último um papel multiplicador, pois ele tende a inflar a economia nos momentos de crescimento, tornando mais profundos, por conseqüência, os momentos de crise. Mas o pressuposto aí é que o lado produtivo comande o processo (o que não significa que ele possa por isso ficar imune ao trabalho amplificador que o lado financeiro produz).

Há quase três décadas, porém, o capitalismo vem sendo comandado pelo lado financeiro, e isso introduziu mudanças significativas na forma de operar do sistema. A riqueza financeira, constituída em boa parte por aquilo que Marx denominou capital fictício, cresce exponencialmente, enquanto o crescimento da renda real (PIB) e, por conseguinte, da riqueza real, dá-se de modo muito mais lento.

Com isso, o sistema fica estruturalmente frágil, dado que o caráter rentista da propriedade do capital se choca com o desenvolvimento vagaroso da produção de valor excedente. As pressões que se exercem sobre o setor produtivo são por isso enormes, justificando toda sorte de barbarismos e retrocessos na relação capital-trabalho. Ademais, o sistema fica muito mais exposto às crises provocadas pelos movimentos dos estoques de riqueza (ativos), que caracterizam o lado financeiro do sistema.

Dos anos 1980 para cá, o capitalismo já experimentou pelo menos cinco grandes crises, contando a maior delas, esta que ora presenciamos. Todas essas conturbações foram provocadas pela intensa mobilidade do capital financeiro planeta afora, com a recorrente formação e estouro de bolhas de ativos. A forma de “resolver” essas crises tem jogado para frente, de forma magnificada, o mesmo problema, pois busca salvar a riqueza financeira da fogueira que ela mesma provoca.

*É professora titular do Departamento de Economia da FEA/USP

03 maio, 2009

O indissolúvel nexo entre teoria e prática no marxismo

Da Agência Carta Maior

No segundo texto da série "Marxismo e Século XXI", Emir Sader trata das relações entre teoria e prática no contexto da obra e do legado de Marx: "Um brilhante pensamento critico não costuma estar acoplado à prática política, enquanto forças políticas novas tem dificuldades para encarar os novos desafios políticos, em suas dimensões teóricas. Trata de valorizar a reflexão teórica, acoplada organicamente à prática política, e de enriquecer a prática política, iluminada pela reflexão teórica", defende.

Emir Sader

“Não se pode separar mecanicamente as questões políticas das questões de organização”.
(Lênin, Discurso de encerramento do 11° Congresso do Partido Comunista da Rússia, citado por Lukacs no encabeçamento do seu ensaio “Notas metodológicas sobre as questões de organização”, em “História e consciência de classe”)

O marxismo foi concebido como teoria transformadora da realidade. Por essa razão, suas primeiras grandes expressões – Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Gramsci, – foram, ao mesmo tempo, indissoluvelmente, teóricos e dirigentes revolucionários. Suas analises e denúncias estavam comprometidas com captar o nervo do real com suas contradições como motores da realidade, para poder compreendê-la na sua dinâmica e decifrar suas alternativas. Seu trabalho teórico estava intrinsecamente comprometido com projetos de transformação concreta e radical da realidade. Daí essa identidade indissolúvel entre trabalho teórico e direção política revolucionária, prática intelectual e trabalho partidário, as fronteiras entre suas atividades como teóricos e como dirigentes revolucionários eram tênues, a ponto que a primeira sistematização da idéia do comunismo – o Manifesto Comunista – foi encomendada politicamente e serviu como documento básico do primeiro partido internacional dos trabalhadores.

A partir do fenômeno que Perry Anderson chamou de “marxismo ocidental” (Nota: in Anderson, Perry, Afinidades seletivas, Boitempo Editorial), - resultado da combinação negativa da stalinização dos partidos comunistas e da repressão fascista - passou a haver uma ruptura entre teoria e prática, retornando, agora sobre o marxismo, a imagem do intelectual desvinculado da prática política, com a correspondente autonomização do discurso teórico. As estruturas partidárias, hegemonizadas pelo stalinismo, bloqueavam elaborações e debates teóricos e políticos alternativos, fazendo com que se produzisse uma nova figura no marxismo: o intelectual desvinculado da prática política. Seu correlato foi a prática política partidária desvinculada da elaboração teórica.

Inevitavelmente a analise e a denúncia passaram a predominar sobre as propostas, as alternativas. Houve um deslocamento dos temas, mas também um deslocamento a favor da teoria desvinculada da prática política. Prática política sem teoria, teoria sem prática – os dois problemas passaram a pesar comum um carma sobre o marxismo e a esquerda. A prática política da esquerda tendeu ao realismo, ao possibilismo, ao abandono da estratégia, enquanto a teoria marxista tendeu ao intelectualismo, a visões especulativas, de simples denúncia, de polêmicas ideológicas em torno os princípios, sem desdobramentos práticos.

Nas décadas mais importantes até aqui da sua trajetória – dos anos 20 do século passado em diante -, a esquerda não pôde contar com a articulação entre seus melhores intelectuais para elaborações que contribuíssem diretamente para enriquecer sua prática política e, ao mesmo tempo, um período de extraordinária riqueza na elaboração teórica do marxismo, não esteve diretamente articulada com a prática, enriquecida por ela e apontando temas e relações concretas de força.

A afirmação de Lênin que encabeça este artigo remete exatamente a isso: não existe um momento de elaboração teórica e depois um momento de aplicação concreta das conclusões teóricas. O marxismo articula intrinsecamente a política e as questões de organização, como uma das expressões da articulação entre teoria e prática. Uma analise marxista que não se articule com projetos de transformação revolucionária, castra o marxismo da sua diferença específica em relação a todas as outras teorias. Um intelectual que se diz marxista e não articula seu pensamento com a prática político-partidária, não assume o marxismo como pensamento dialético, como motor da prática política concreta. Corre todos os riscos de autonomizar a teoria, de desprezar as relações de força políticas, de não captar os movimentos reais da história. Foi o que afetou o marxismo ocidental, que não pôde aliar a imensa criatividade teórica dos autores que podem ser incorporados nessa categoria, à transformação dessa teoria em força material, pela penetração nas massas – conforme a afirmação de Marx. Perdeu a teoria sua dimensão transformadora, perdeu a prática política a imensa capacidade analítica da teoria.

Esse descolamento é politicamente grave, sendo responsável por um forte e reiterado sentimento de parte dos intelectuais, que se reivindicam legítimos representantes da teoria, que pretendem expressar em estado puro, que tem razão contra o abastardamento da política. (O próprio Lukacs expressou isso de forma consciente no novo prefácio de História e consciência de classe, quando confessa que sentia que sempre tinha tido razão e sempre tinha perdido politicamente, deduzindo que devia afastar-se da política.) Que, na realidade, entre a teoria e a realidade – sempre heterodoxa – ficam com a teoria e se isolam da prática, dos caminhos reais da história concreta.

Essa distância se torna ainda mais grave quando o mundo vive situações inéditas – hegemonia capitalista e imperial global, junto a exibição clara de suas debilidades e de retrocesso dos chamados fatores subjetivos da construção de alternativas anticapitalistas -, em que a reflexão teórica articulada com a prática política se torna ainda mais indispensável. O refúgio de setores da intelectualidade na denuncia de capitulações políticas, sem capacidade de propor alternativas, e a trajetória empírica, de adaptação correlações de força desfavoráveis por parte de forças políticas, constitui um quadro negativo, desfavorável à construção de soluções superadoras da enorme crise hegemônica que vivem nossos países e o mundo globalizado.

O exemplo dramático da Venezuela é muito significativo, em que um processo político inovador, corajoso, se choca com a oposição frontal de quase que a totalidade da intelectualidade universitária. Enquanto esta se divide entre um denuncismo de esquerda, sem ingerência política e capacidade propositiva alternativa, o processo político ressente de uma capacidade reflexiva vinculada á sua prática para contribuir a encarar seus dilemas e a definir seu futuro.

Mas o fenômeno se estende, de maneira mais ou menos similar, a todo o continente. Um brilhante pensamento critico não costuma estar acoplado à prática política, enquanto forças políticas novas tem dificuldades para encarar os novos desafios políticos, em suas dimensões teóricas. Se trata de valorizar a reflexão teórica, acoplada organicamente à prática política, e de enriquecer a prática política, iluminada pela reflexão teórica. Exemplos da articulação entre capacidade de elaboração teórica e de direção política fora, na América Latina, o chileno Luis Emilio Recabarren, o cubano Julio Antonio Mella, o peruano José Carlos Mariategui e, mais recentemente, o brasileiro Ruy Mauro Marini e o boliviano Alvaro Garcia Linera – demonstrando a factibilidade dessa articulação e de como ela fertiliza tanto a criação teórica, quanto a prática política.

A imagem do marxista universitário, desvinculado da prática política é uma contradição em termos, uma incoerência, da mesma forma que dirigentes políticos marxistas que não sejam ao mesmo tempo intelectuais revolucionários. O ponto de vista do marxismo é um ponto de vista de partido, desde um partido, desde a acumulação de forças para um objetivo estratégico, programático. Não se trata defender a teoria como cânone teórico intocável, mas de resgatar o marxismo como metodologia – sua única dimensão ortodoxa, segundo Lukacs -, de crítica e de superação da realidade existente.

Carta Maior lança debate: o Marxismo e o Século XXI

Da Agência Carta Maior

A Carta Maior lança a partir de hoje um seminário virtual sobre a obra de Karl Marx e os problemas que afetam a humanidade neste início do século XXI. Diante da grave crise econômica, política e social, decorrente das políticas do modelo neoliberal implementado nas últimas décadas no mundo, o pensamento do autor alemão voltou à ordem do dia. A nova editoria terá a curadoria do professor Francisco de Oliveira, que escreverá e convidará, mensalmente, intelectuais para abordar o tema num debate que se estenderá até o final do ano e procurará ofecerer respostas à pergunta: o que Marx tem a dizer sobre os problemas do século XXI?

Francisco de Oliveira - Texto de apresentação

O marxismo seguramente foi a doutrina mais importante do século XX, no amplo sentido de um “campo” (Bourdieu) ou ainda no sentido de ideologia (Gramsci) e não no dos próprios Marx e Engels.(como doutrina dominante da classe dominante.) A tal ponto que se pode dizer que o século XX foi o século do marxismo.

A partir das formulações originais da dupla Marx-Engels, o marxismo foi se constituindo numa concepção de história, numa visão de mundo, numa prática de luta, numa política, diretamente na crítica ao capitalismo, seu inimigo figadal. Desde o século XIX, formações partidárias nitidamente operárias criaram-se inspiradas nas idéias da dupla, tais como o prestigioso Partido Social-Democrata alemão, do qual o próprio Engels foi militante e dirigente, e o Partido Socialista Operário Espanhol. Todos os demais partidos de origem operária na Europa Ocidental, e mesmo na Índia, tinham o marxismo como sua orientação teórico-prática mais consistente.

Deve-se dizer, sem apologia acrítica, que esse vasto campo construiu-se cheio de contradições, que fizeram sua riqueza, até que a mão pesada do Partido Bolchevique, vitorioso na Revolução de 1917, em seguida Partido Comunista da URSS, converteu o marxismo num dogma, e matou, em grande medida, sua capacidade criadora, que requer, antes de tudo, sua própria autocrítica. O marxismo havia chegado à Rússia pelas mãos de teóricos do calibre de Plekhanov, e deu origem imediatamente a um movimento político que tomou explicitamente a forma de partido lutando pela Revolução e pelo poder, com seus dirigentes que se transformaram em condotiere mundiais, Lênin e Trotsky, para citar apenas estes.

Todos os partidos de origem operária o tinham como sua referência principal, salvo, talvez, e ironicamente, o Partido Trabalhista britânico onde o fabianismo e a rejeição à revolução logo dominaram a cena trabalhista inglesa, na contramão de Marx que havia pensado que o crescimento do operariado faria aparecer um pensamento e uma prática revolucionárias. Mas nunca deixou de haver não só uma fração de trabalhistas ingleses marxistas, como uma tradição teórica sobretudo na área da História, como o prova até hoje, Hobsbawm, e ontem, Laski, na teoria política. Mas a contribuição do velho Labour para a formação das políticas do Estado do Bem-Estar talvez tenha sido a mais importante. Esse vasto movimento chegou até às ex-colônias. O Brasil conheceu a formação de seu Partido Comunista já em 1922.

Mesmo refluindo das posições revolucionárias, os partidos de origem social-democrata mais que influenciar, de fato, inseriram as lutas sociais para sempre na política. Todo o vasto movimento do Estado do Bem-Estar radicou na capacidade de operação dos partidos de origem operária, a socialização da política a que aludia Gramsci, o que elevou o nível de vida nos países do Ocidente capitalista a níveis que deixaram o programa inicial de Lênin como mero exercício teórico. Aliás, o “pequeno grande sardo” é um dos marxistas mais originais e criativos, que contribuiu poderosamente para que o próprio marxismo entendesse e explicasse as democracias ocidentais.
Recusando-se a fazer da política uma dedução da economia – o que, infelizmente, ocorre hoje – Gramsci, nos cárceres do fascismo mussolinista, deu as diretrizes que tornaram o então Partido Comunista Italiano o mais original e o mais capacitado a dirigir a nova Itália democrática. Aqui, mais uma vez, a história pregou uma peça: o progresso italiano, de que o partido de Gramsci foi o avalista em parceria – o “compromisso histórico” – com os cristãos do Partido da Democracia Cristã, terminou por solapar as bases sociais de ambos, e o PCI mergulhou numa longa decadência da qual há apenas vestígios em meio às ruínas das grandezas de Roma.

Mas o marxismo carrega nas costas o pesado fardo do estalinismo e do terror soviético, sem que os marxistas tenham, até hoje, revelado a capacidade de explicar, marxisticamente, a tragédia em que desembocou a revolução mais radical da era moderna. Não é suficiente a explicação materialista-vulgar de que todas as grandes revoluções comeram seus próprios filhos; tampouco justificar a cruel ditadura do georgiano – que na verdade já se ensaiava sob Lenin - pelas realizações técnico-científicas da ex-URSS: todos os marxistas nunca deveriam esquecer a lição do próprio Marx e dos frankfurtianos de que “progresso e barbárie” sempre formaram na história universal uma terrível unidade.

A partir de certo momento, ficou muito evidente que o “marxismo soviético” (a expressão é de Marcuse) não era outra coisa senão uma doutrina de grande potência arrogantemente usurpadora das tradições marxistas. Mesmo a crítica trotkysta, que cedo viu a “degeneração burocrática” do Partido, e a também ainda mais precoce crítica de Rosa Luxemburgo, junto com a postura de Kautsky, não foram suficientes – nem o poderiam ser, já que o terror estalinista mal havia mostrado suas garras já sob a criação da temível e terrível Cheka sob Lênin.

Nos fins do século que acabou, talvez nas pegadas da explicação de Perry Anderson para o que ele chamou de “marxismo ocidental”, a combinação da desestruturação produtiva, com a revolução técnico-científica e paradoxalmente o próprio progresso levado a cabo pelo Estado do Bem-Estar desbarataram a própria classe operária e seus partidos social-democratas e comunistas; o “marxismo ocidental” descolou a reflexão teórica da perspectiva revolucionária. Deixou de influenciar a política e, pois, a luta de classe organizada, e refugiou-se nos trabalhos acadêmico-científicos. Mesmo assim, na universidade, que apenas durante um curto período – uns 40 anos , se tanto – abriu-se para o marxismo, o movimento também refluiu.

Mas, surpreendentemente, a força criadora do marxismo abriu novas fronteiras , mesmo em terrenos que lhe eram anteriormente hostis e com os quais, ele mesmo, teve relações conflitivas e lhes dirigiu anátemas dogmáticos. É o caso das religiões- antes o “ópio do povo”, da psicanálise ,-uma ciência do inconsciente da justificação burguesa dos seus próprios crimes -, da própria literatura (nos caminhos já originalmente pensados por Lukacs), na critica da cultura e da modernidade – os frankfurtianos – da hegemonia norte-americana, Gramsci e seu “americanismo e fordismo”. Esses terrenos todos foram imensamente fecundados pelo marxismo, que lhes ampliou os horizontes.

A pergunta que essa curadoria quer fazer é direta: e o século XXI e no século XXI ? O que o marxismo pode vir a ser, o que o marxismo tem a dizer? O século abriu-se com a maior crise econômica, mundial, global, desde os dias da Grande Depressão de Trinta. Mesmo sobre esta, o que o marxismo disse “no calor da hora” não honrou muito as tradições da economia política marxista, que é seu terreno e sua certidão de nascimento. Economistas como Ievguin Varga passaram a certidão de óbito do capitalismo na crise de 1929. E agora, que crise é esta? François Chesnais tem dado orientações teóricas muito férteis, sobre a transição para um regime de acumulação à dominância financeira. E que mais ?

Não há marxismo sem marxistas; estes não são muitos, hoje, no Ocidente. No Brasil, às vezes tem-se a impressão de que o marxismo floresce sobretudo na universidade, na área de humanas, e ilumina muitos nichos da crítica. Mas nos partidos de esquerda, o marxismo é quase sempre um indesejado e no operariado ele é mais, é desconhecido. Operariado aliás, hoje multifacetado, reduzido nos locais produtivos, abundante nos locais de serviço, milhões nos trabalhos informais, uma grande classe não-classe. Será possível combinar reflexão criadora, novas interpretações do mundo, descoladas do trabalho?

As explorações sobre essas intrigantes questões não se farão com um marxismo ensimesmado, sectário e doutrinário; mas não se trata de proclamar um ecletismo despolitizado: as interrogações partem da tomada de posição de que o marxismo pode ainda alimentar as lutas pela transformação social e política, senão com a transcendência e abrangência mostradas no século XX, pelo menos com uma postura crítica que não se deixará seduzir nem pelo apocalipse nem pelo conformismo. Em suma, um marxismo dialógico e dialético.